A pedra do Lobo

Um dos meus carmas é encontro acidental e incidental, especialmente em livrarias. Quase tudo de muito interessante que já me aconteceu, começou em livrarias. E meu conto mais premiado e que, particularmente, gosto mais é o relato de uma estrela que ascendeu e acendeu entre livros. Mas hoje não tenho intenção de fazer literatura.
Dia destes, recebi um e-mail com os lançamentos livrescos do mês. Tenho até o hábito de pedir livros pela internet, mas estando em BH gosto de senti-los em minhas mãos. Adoro cheiro de livros e adoro olhar o colorido das estantes e adoro ver o interesse das pessoas pelos livros. Claro que fui correndo pra minha livraria preferida. Ler as várias orelhas e sentir o cheiro das letras recomendadas era o programa.
Lá, me perdi. São tantos os títulos, é tanto o encantamento que me desligo do tempo e até mesmo do espaço. Mas sou curta e tenho sempre enormes dificuldades com as prateleiras mais altas. E foi de uma delas que a pedra me desmoronou. Nas pontas dos pés, tentei puxar um Lobo Antunes que há muito vinha querendo ler. Não deu outra: a pedra do Lobo caiu sobre mim, acompanhada de vários outros volumes. O barulho deve ter sido ensurdecedor, mas não o ouvi. O sangue que me tomou o rosto (vou morrer tímida) encharcou os sentidos. Virei estátua da vergonha. Fiquei ali como uma idiota olhando os livros espalhados sobre os meus pés e sentindo uma filhadaputa de uma dor no ombro. Não sei se havia relógio ali. Se havia, os ponteiros pararam.
Fui tirada do ataque de bobice por uma figura que se abaixou à minha frente catando livros. Uma cabeça revolta e um tanto descorada, uns ombros largos vestidos de verde (detesto roupa verde). Era só o que conseguia ver pelos meus olhos vesgos de vergonha. Ele levantou o rosto e me deu um sorriso meio nãofoinada e meio vemmeajudarpô. Estabanada, saí da estatice e praticamente caí de joelhos ao lado dele. Enquanto juntava, toda desajeitada, alguns volumes, ia pensando: putaquepariu, será que não dou uma dentro? E tinha que ser este bonitão pra me ajudar? Cadê os normais do pedaço?
Levantamos juntos. Eu pedindo ao chão que se abrisse pra me acolher, ele numa pose de touacostumadocombaixinhasautosuficientes. Despachado, foi colocando os livros lá no sétimo andar da loja enquanto meus olhos seguiam suas mãos. Agradeci (só Deus sabe como) e fingi uma desenvoltura que estava longe de sentir: te devo um suco!
O suco rendeu um longo papo. Ele é jornalista (ô carma!). E agora é meu pretendente. Quer dizer, eu acho que o quero como. Por enquanto, estamos naquela fase de telefonemas inter municipais/estaduais no meio da tarde (nem quero imaginar o custo disso), pequenas confidências por e-mail e na bagagem outro encontro quase inocente.
Eu que sou uma expert em analisar sentimentos alheios ando buscando entender os meus. Os sinais não são lá muito bons. Estou acesa para alguns contrastes nossos – o que, em outras palavras, significa que estou racional. E estar racional é péssimo pra paixão.
Mas quem disse que contrários não podem se embolar e se colorir?

***

Estou cheia de vôos contrastantes. Uma asa apontando pra amores em stand by, outra apostando em mil e uma novidades.
“Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”. Ô coração vagabundo!

Beijo estalado!


midi: coração vagabundo – ana canãs